1º Encontro: Introdução
Quinta-feira, Março 13, 2008
: Mulheres, Mudez e Espera?
Texto de Apoio:
Susan WILLIS, Cotidiano: Para Começo de Conversa, trad Elena Riederer e Guiomar Boscov, Editora Graal, 1997.
O trecho foi retirado da página 16, em que é mencionado estudo de Tania Modleski sobre as telenovelas:
“Tania Modleski*, em sua análise de telenovelas, faz considerações sobre esse gênero que fornecem uma pista para a decifração da embalagem. Ela identifica a “espera” como o aspecto formal de maior relevância nas telenovelas. Como todos sabemos, nesse tipo de entretenimento não acontece nada e não se resolve nenhum problema. Os personagens que abrem um determinado capítulo podem sumir pó um dia ou dois, um outro capítulo pode anunciar um acontecimento dramático ou escandaloso, mas a chegada do seu ponto culminante e sua conseqüências irão se arrastar por semanas. Os telespectadores aprendem a manter enredos e personagens em suspenso, capítulo após capítulo, esperando o final que sabem que vai demoram a chegar. Modleski acentua que “as telenovelas são importantes para o público, em parte porque nunca terminam. A narrativa, colocando obstáculos cada vez mais complexos entre o desejo e sua realização, faz da espera um fim em si”. Modleski compara habilmente a espera-componente-formal-da-telenovela com a experiência vivida pela dona de casa. Sozinha em casa, seu marido no trabalho, um ou todos os seus filhos na escola, a dona de casa desempenha as tarefas cotidianas necessárias à manutenção do lar e da família num ambiente em que tudo é espera.
As telenovelas revestem de prazer requintado a condição central da vida da mulher – a espera -, seja pelo tocar do telefone, pelo soninho do nenê ou pela reunião da família logo após o capítulo da telenovela, onde os personagens que também encarnam uma família foram interrompidos mais uma vez em sua luta contra a dissolução”.
Modleski conclui que o apelo das telenovelas reside na maneira com que elas transformam a espera em um prazer – a telenovela estetiza a espera e permite que a dona de casa transcenda sua experiência real e frustrante da espera e a conceba como um prazer”.
* MODLESKI, Tânia. Loving with a Vengeance, Nova York, Methuen, 1982.
.
EXCERTO 1 (Ana Cristina César)
.
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:
.
.
EXCERTO 2 (Paulo Ferraz)
(…)
Uma mulher no outdoor nossa
mudez é absoluta, mesmo a
daqueles que pensam ter o
dom da fala, mudez seca
como nem a pedra é seca,
não que lhe falte umidade,
pois, ao contrário da pedra
que se irrigada se quebra,
decompõe-se em terra e cede À
força da semente, A nossa
mudez calada, entretanto
sua estrutura é seu conteúdo
mais verdadeiro. Seu corpo
falso, luzes prisioneiras
do papel, não nos esconde
que é engodo, justo por sermos
mudos, ver coage com mais e-
ficácia. é asfáltica, estéril,
onde nada nasce, imprópria
para o plantio de palavras
- espécie animal que vive
só em bandos -, nossa mudez, a
mudez virótica, é o eco
do primeiro dia, sem forma e
vazia. Que autoridade é essa
de uma mulher no outdoor para
comer minhas cicatrizes,
meus silêncios e saudades,
(…)
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1.
Constança | Segunda-feira, Março 17, 2008 at 2:46 pm
legal
2.
Paulo Moreira | Segunda-feira, Março 17, 2008 at 3:27 pm
A questão é que Modleski não está falando de novelas como as brasileiras, mas de um produto um pouco diferente. As soap operas americanas e inglesas literalemente não acabam, ou pelo menos duram anos, até décadas sem um planejamento de um enredo com um fechamento final. Além disso as soap operas parecem sempre no meio da manhã e tem um público muito mais restrito e específico do que as telenovelas latino americanas. Com isso eu não estou dizendo que não estamos falando de coisas completamente diferentes e que não vale a pena trazer a reflexão feita por ela, mas no sentido de contribuir para a reflexão mais precisa eu acho que é preciso qualificar: a novela brasileira não é mais feita só para mulheres, talvez principalmente para elas e não é feita só para mulheres casadas e com filhos.