5 º Encontro: Amor, Consumo e Pornografia
Quarta-feira, Maio 7, 2008
Hilda Hilst (Brasil, 1930 – 2004)
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A Cantora Gritante
Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite… de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão… aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.
Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
.
Ana Cristina César (Brasil, 1952 – 1983)
.
O HOMEM PÚBLICO N. 1
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
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Ana Paula Ferraz (Brasil, –)
.
Eu vejo pelos ombros o caminhante percorrendo as montanhas.
Ele quer o doce e escuro poço
e encontra
e molha os dedos
e abre
o pequeno orifício
que atravessa rompendo, em rompantes
acariciando copas, apalpando o fruto
invadindo os pomares
atrás do vale.
Tudo ele toma, em mergulho, até que a terra arde.
Assim descubro, fundamente
(já são suaves as mãos de sombra -
ele é quase folha caída)
: amar é uma brutalidade.
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