6 º Encontro: O Corpo no Espaço poético
Quarta-feira, Maio 7, 2008
Virna Teixeira (Brasil, 1971 -)
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DETOX
Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.
Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.
Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.
A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.
No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.
Marília Kubota (Brasil, 1964 -)
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ESPERANDO AS BÁRBARAS
Barbie, Tippie ou como você chame,
Janet, Condolezza, Lynndie,
não é mais que uma boneca.
Não como Konstantin,
que amava os homens e por eles caiu
nos bordéis de Alexandria
anunciando homens
como os de vocês.
Vocês são demais.
Anseiam romances
enquanto seus homens explodem cabeças
de porco no mundo velho.
Vocês sabem tudo sobre sexo
e lêem revistas pornográficas em banheiros iluminados,
controlando hormônios.
Vocês são hiper.
Jovens americanas, como vocês, mas do Sul,
também ousadas, desde dez anos vendem o corpo
para comer. Os abutres comem delas.
Vocês ensinam as mulheres a serem liberadas
Usando as mais modernas técnicas
para conseguir prazer.
Todas as mulheres do mundo aguardam o ritmo
que a superestrela virgem ditará,
apertada em corpetes e botas militares.
Vocês são o rosto das mulheres do mundo.
Que será de nós sem as barbies?
Sylvia Plath (EUA, 1932 – 1963)
ARIEL
Stasis in darkness.
Then the substanceless blue
Pour of tor and distances.
God’s lioness,
How one we grow,
Pivot of heels and knees! – The furrow
Splits and passes, sister to
The brown arc
Of the neck I cannot catch,
Nigger-eye
Berries cast dark
Hooks -
Black sweet blood mouthfuls,
Shadows.
Something else
Hauls methrough air -
Thighs, hair;
Flakes from my heels.
White
Godiva, I unpeel -
Dead hands, dead stringencies.
And now I
Foam to wheat, a glitter of seas.
The child’s cry
Melts in the wall.
And I
Am the arrow,
The dew that flies
Suicidal, at one with the drive
Into the red
Eye, the cauldron of morning.
ARIEL
Estase no escuro
E um fluir azul sem substância
De penhasco e distâncias.
Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares de joelhos! – O sulco
Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,
Olhinegras
Bagas cospem escuras
Iscas -
Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais
Me arrasta pelos ares -
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.
Godiva
Branca, me descasco -
Mãos secas, secas asperezas.
E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O grito da criança
Escorre pelo muro
E eu
Sou a flecha,
Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho
Vermelho, fornalha da manhã.
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Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e do Maurício Arruda Mendonça. PLATH, Sylvia. Poemas. Organização, tradução, ensaios e notas Rodrigo Garcia Lopes, Maurício Arruda Mendonça. São Paulo: Iluminuras, 2007.
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Isabel de los Angeles Ruano (Guatemala, 1945 – )
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El Silencio Cerrado
Nadie abrió la boca
ni nadie dijo nada.
Y ese silencio, hermanos,
Nos ha vuelto culpables.
Nos quedamos callados,
ni una protesta
Ni una sola palabra
se pronunciaron.
Nada se dijo.
Y todos fuimos cómplices
de los canallas
Todos quedamos con las manos
embarradas de lodo.
¡Todos la violamos!
Todos le arrancamos
los pezones a mordiscos.
Todos le sorbimos la sangre
de los pechos ultrajados.
¡Cuando aún estaba viva!
Y es que la bestia anda suelta.
En todos los corazones.
Y ese silencio de todos
Es el silencio de la bestia saciada,
Es el silencio del culpable
de los complices.
Porque ahora todos
Somos los asesinos de
Rogelia.
Silêncio Cerrado
Ninguém abriu a boca
nem ninguém disse nada.
E esse silêncio, irmãos
Nos faz culpados.
Nós ficamos quietos,
nem um protesto
Nem uma só palavra
pronunciaram-se.
Nada foi dito.
E todos fomos cúmplices
dos canalhas
Todos ficamos com as mãos
enlameadas de lodo.
Todos nós a estupramos!
Todos arrancamos
seus mamilos a dentadas.
Todos tragamos o sangue
dos peitos ultrajados.
Enquanto ainda estava viva!
É que a besta anda solta.
Em todos os corações.
E esse silêncio de todos
É o silêncio da besta saciada,
É o silêncio dos culpados
e dos cúmplices.
Porque agora todos
somos os assassinos de
Rogélia.
tradução Ana Rüsche (versão inicial)
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