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OPA! Nova Edição do Curso em 2009!
Mujeres-Women-Mulheres II:
Uma leitura sobre o Cotidiano para o Século XXI
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Mujeres-Women-Mulheres II: Uma leitura sobre o Cotidiano para o Século XXI é a segunda edição de curso em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres. Se na primeira edição 2008 foram apresentadas poetas mulheres contemporâneas de vários países, a segunda edição 2009 traz idéias afiadas de poetas, prosadores e críticos sobre cultura e inquietações sobre o feminino.
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PROGRAMA: Pretendendo trabalhar com incertezas e criar leituras possíveis sobre a força do feminino no cotidiano, os participantes serão convidados a ler e discutir textos, assim como a produzir textos curtos durante o curso (poemas, prosa, reflexões).
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1º Encontro | Introdução: Aula de ginástica com Susan Willis, passadinha na farmácia com Beatriz Preciado
2º Encontro | Duas meninas mal-criadas: Capitu e Helena Morley
3º Encontro | What’s Underneath: cochichos entre Marianne Moore e Elizabeth Bishop
4º Encontro | Um Diário para Alice Walker em que nós todos escrevemos
5º Encontro | Como Ler a Nossa Página Sempre em Branco: apresentação e discussão de textos produzidos durante o curso pelos participantes.
6º Encontro | Encerramento: Leitura e considerações finais.
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BIBLIOGRAFIA
• BISHOP, Elizabeth, O Iceberg Imaginário e Outros Poemas, trad. Paulo Henriques, Companhia das Letras
• MOORE, Marianne, Poemas, trad. José Antonio Arantes, Companhia das Letras, 1991
• MORLEY, Helena, Minha Vida de Menina, Companhia das Letras
• PRECIADO, Beatriz, Testo Yonqui, Espasa
• SCHWARTZ, Roberto, Duas Meninas, Companhia das Letras
• WALKER, Alice, Vivendo Pela Palavra, Rocco
• WILLIS, Susan, Cotidiano Para Começo de Conversa, Graal Editora
Add comment Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009
7 º Encontro: Raízes, Violência e Multiculturalidade
Sylvia Plath (EUA, 1932 – 1963)
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Daddy
You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.
Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time¬_
Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco* seal
And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off the beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.
In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend
Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.
It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene
An engine, an engine,
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.
The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gypsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.
I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You_
Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.
You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who
Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.
But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look
And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I’m finally through.
The black telephone’s off at the root,
The voices just can’t worm through.
If I’ve killed one man, I’ve killed two_
The vampire who said he was you
And drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.
There’s a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I’m through.
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Papai
Você não serve, você não serve,
Não serve mais, sapato negro
Em que eu vivi como um pé
Por trinta anos, branca e pobre,
Mal me atrevendo a um espirro sequer.
Eu tive de matar você, papai.
Você morreu antes que eu pudesse¬_
Peso de mármore, saco repleto de Deus,
Estátua medonha com um dedão gris
Do tamanho de uma foca de Frisco*
E uma cabeça onde o estranho Atlântico
Derrama o verde-vagem sobre o azul
Nas águas da magnífica Nauset.
Eu rezava para recuperá-lo
Ach, du.
Na língua alemã, na vila polonesa
Aterradas pelo rolo-compressor
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é comum.
Diz meu amigo polaco
Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde você
Fincou seus pés, suas raízes,
Com você nunca pude falar.
A língua presa no maxilar.
Arapuca de arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em todo alemão vi você.
E a linguagem obscena
Uma locomotiva, uma locomotiva
Em vapores me leva como Judia.
Uma Judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Passei a falar como uma Judia.
Acho que bem posso ser Judia.
A neve do Tirol, a cerveja clara de Viena
Não são lá muito puras ou genuínas
Com minha ancestral cigana, minha estranha sina
E meu baralho de tarô, meu baralho de tarô
Eu devo ser um pouco Judia.
Você sempre me meteu medo,
Com sua Luftwaffe, seu papo furado.
E o seu bigode asseado
O olho ariano, bem azulado.
Homem-panzer, homem-panzer, oh Você_
Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu vara.
Toda mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Coração de um bruto da sua laia.
Você está de pé na lousa, papai,
Na imagem que levo comigo,
Em vez do pé, o queixo fendido,
Mas não menos diabo por isso, oh não
Não menos que o homem que em dois
Partiu meu belo e rubro coração.
Eu tinha dez anos quando o enterraram.
Aos vinte, eu tentei morrer
E voltar, voltar pra você.
Achei que mesmo os ossos serviram.
Mas me puxaram saco afora,
Juntaram meus pedaços com cola.
E aí eu soube o que fazer.
Eu fiz um modelo de você,
Homem de negro, Meinkampf no jeito
À tortura e ao torniquete afeito.
E eu disse aceito, aceito
Então, papai, finalmente acabei.
Arranquei o telefone negro da raiz,
As vozes já não rastejam até aqui.
Se matei um homem, matei dois_
O vampiro que me disse ser você
E sugou meu sangue por um ano afora,
Sete anos, se quiser saber
Papai pode voltar a se deitar agora.
Há uma estaca em seu coração negro
E os homens da vila jamais gostaram de você.
Estão espezinhando, dançando sobre você.
Eles sempre souberam que era você.
Papai, papai, seu canalha, acabei.
* Frisco: a cidade de São Francisco, EUA.
Tradução de Marina Della Valle
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Âmbar Past (EUA/México-Chiapas, 1949 -)
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Cuando Era Hombre
Para José Angel Rodríguez , Gerardo Otríz, Giovanni Proiettis, John Oliver Simón, Juan Blasco, Juan Ascencio, Jack Hirschman, Paul Landry, Rodrigo Núñez, José Martínez Torres, Carter Wilson, John Burstein, José Ignañcio Ruiz de Francisco, William Blake, Pancho Álvarez, Ayub Barquete Lope, César Meraz, Robero Laughlin, Humberto Pérez Matus, Hermann Bellingauasen, Miguel Ángel Godínez, Charles Bukowski, Javier Molina, Raúl Garduño, Jaime Sabines y Joaquín Vásquez Aguilar, hermanos y musas.
CUANDO ERA HOMBRE vivía en San Cristóbal. Arriba de la montaña, al sur, frontera con Guatemala, en un lugar donde tocan arpa. Antiguo crucero en los caminos blancos de los mayas. Anduve calles empedradas. Caminé por la niebla. Me enamoré varias veces.
Ahora que soy mujer, cuando subo en un taxi, el chofer me pregunta:
-¿Usted no es de aquí, verdad?
Yo le contesto: -Soy orgullosamente mexicana.
-¿Te casaste con un mexicano, verdad? -me acusa con morbosidad.
-Sí, señor -le digo-. Con varios.
Tengo una amiga que estaba casada con el Santo, el enmascarado de plata. Salía en todas sus películas. Guapa, rubia. Ahora es escritora destacada pero jamás escribe acerca del luchador. Es como yo que nunca hablo de mis otras vidas. No menciono a mi tío en Chattanooga, igual como la abuela cambia el tema a los que preguntan acerca de los cherokees en la familia.
-¿Son finos o corrientes? -quiere saber la señora de la tienda. El jabón de Castilla es de calidad, para los que se bañan, o apestan.
El olor del dinero blanquea la piel, ensuavece los prejuicios, enaltece al cliente.
-Bueno, pero, ¿tú vas a sus dentistas? ¿Dejas que te saquen sangre, piojos, hijas? ¿Lees libros escritos por lesbianas?
*
-PUES, SÍ, señor, hace años me vine para acá, fui para allá. No nací aquí. Me acosté con muchos cuerpos. Hombres que ahora encuentro en la calle, caminando hacia mí en la otra acera. Reconozco algunos con quienes he estado en la oscuridad desnuda. Casi no nos vemos ya.
Sí, señor, me acuerdo de cada uno. Muchos tenían el mismo nombre. Esto era lo raro: Sin cruzar palabra, al instante, me daba cuenta -a las dos cuadras- si el desconocido se llamaba R-.
R- es una manera de andar, una mirada, una de las grandes razas. Uno de los R-, el primero de todos, el que dejé cuando me cambié para acá, pues ése – después de veinte años de esperarme – se volvió a casar con otra que se llama igual que yo. Munda. Esto sí es cierto. Yo lo viví.
Recorrí todo el abecedario. Desde los A-, hasta los B-, los C-. Había un D- que olía a caoba, un F- de pito dulce, un H- salado. Los J- suelen cantar en la cama, los K- recitan versos. Un L- en una hamaca de la tierra caliente…
Me esmero en acordarme de sus nombres. ¡Da pena equivocarse en el momento del placer y gritar ¡M-! en vez de ¡N-! Para no complicarme la vida casi siempre me conformo con los R-. Les fui muy fiel. A todos.
Nunca permito que los taxistas me sigan entrevistando una vez que llegamos al asunto de mis matrimonios. Simplemente me callo y los dejo con su vergüenza en la boca. Jamás tocamos las preguntas morbosas que les hierven por dentro.
-¿De qué color tiene ella los vellos de su panochita? -oí que preguntaban unos indios al chofer, señalándome con su mirada.
Cuando era niño me gustaban las rubias. Ya que soy mayor las gringas me dicen Negro. Cuando voy en la calle con mi hija y su madre, todos se vuelven para averiguar si salió saltapatrás o güera.
*
(…)
Cuando era hombre nunca se me ocurrió violar a una mujer. Yo quería que me lo hicieran a mí. Que me manosearan las gabachas, destas que puedes ligar en San Cristóbal. Conocí a una que me dejó su dirección. Ella iba pidiendo aventón por toda la República Mexicana. Sola, en camiones grandes.
Cuando era niña pensé que María Emma era de chocolate y yo de vainilla. Los meses iban girando contra reloj y los números eran de colores. Existía un dios que plantaba la semilla de un hijo en las mujeres enamoradas. Su lengua corría por todo mi cuerpo, hasta el clítoris, mientras rezaba a los ángeles.
*
No me acuerdo cuándo era hombre. Sólo sé que quería ser mujer para luego volverme puta. Y creo que las gringas pagaban para acariciarme.
*
Me transformo como nube. San Cristóbal es mi crisálida. ¿Cuántos años tengo que permanecer aquí para poder volar?
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Quando Era Homem
(excertos)
Para José Angel Rodríguez , Gerardo Otríz, Giovanni Proiettis, John Oliver Simón, Juan Blasco, Juan Ascencio, Jack Hirschman, Paul Landry, Rodrigo Núñez, José Martínez Torres, Carter Wilson, John Burstein, José Ignañcio Ruiz de Francisco, William Blake, Pancho Álvarez, Ayub Barquete Lope, César Meraz, Robero Laughlin, Humberto Pérez Matus, Hermann Bellingauasen, Miguel Ángel Godínez, Charles Bukowski, Javier Molina, Raúl Garduño, Jaime Sabines e Joaquín Vásquez Aguilar, irmãos e musas.
QUANDO ERA HOMEM vivia em São Cristóvão. Acima da montanha, ao sul, fronteira com a Guatemala, num lugar onde tocam harpa. Antigo cruzamento dos caminhos brancos dos maias. Andei por ruas calçadas com pedras. Caminhei pela névoa. Me apaixonei várias vezes.
Agora que sou mulher, quando subo num táxi, o motorista me pergunta:
- A senhora não é daqui, verdade?
Eu respondo: – Sou orgulhosamente mexicana.
- Você se casou com um mexicano, verdade? – me acusa sujo, excitado.
- Sim, senhor – digo – Com vários.
Tenho uma amiga que foi casada com O Santo, o matador máscara de prata. Aparecia em todos os seus filmes. Bonita, loira. Agora é escritora reconhecida, mas jamais escreve sobre o justiceiro. É como eu, que nunca falo de minhas outras vidas. Não menciono o meu tio de Chattanooga, como a avó que muda de assunto aos que perguntam sobre os cherokees na sua família.
- São finos ou ordinários? – quer saber a senhora da loja. O sabão de Castela é de qualidade, para quem toma banho ou fede.
O cheiro do dinheiro branqueia a pele, amacia os preconceitos, enaltece o cliente.
- Tudo bem, mas, você vai no dentista deles? Você deixa que te tirem o sangue, piolhos, filhos? Você lê livros escritos por lésbicas?
*
- BEM, sim, senhor, faz muitos anos que vim para cá, que fui para lá… Não nasci aqui. Me deitei com muitos corpos. Homens que agora encontro na rua, caminhando contra mim na outra calçada. Reconheço alguns com quem estive desnuda na escuridão. Já quase não nos vemos mais.
Sim, senhor, recordo-me de cada um. Muitos tinham o mesmo nome. Isso era estranho: Sem trocar nenhuma palavra, já me dava conta num instante – a duas quadras – se o desconhecido de chamava R-.
R- é uma maneira de andar, um olhar, uma das grandes raças. Um dos R-, o primeiro de todos, ele que deixei quando vim para cá, pois esse – depois de vinte anos me esperando – foi se casar com outra que tem o mesmo nome que eu. Mundo. Isso sim é verdade. Eu o vivi.
Recorri todo o abecedário. Dos A- até os B-, os C-. Havia um D- que cheirava a mogno, um F- de pinto doce, um H- salgado. Os J- gostam de cantar na cama, os K- recitam versos. Um L- numa rede de terra quente…
Capricho bem para me recordar de seus nomes. Uma vergonha se enganar no momento de gozar e grita M-! em vez de N-! Para não complicar a vida, quase sempre me conformo com os R-. Fui muito fiel a eles. A todos.
Nunca permito que os taxistas continuem me entrevistando uma vez que chegamos ao tema dos meus casamentos. Simplesmente me calo e deixo-os com sua vergonha na boca. Jamais tocamos nas perguntas calientes que lhes fervilham por dentro.
- De que cor são os pelos dela embaixo? – ouvi que uns índios perguntavam para o motorista, assinalando-me com seus olhares.
Quando era menino, gostava das loiras. Agora que sou adulto, as gringas me dizem Negão. Quando estou na rua com minha filha e sua mãe, todos olham para conferir se saiu pretinha ou loirinha.
*
(…)
Quando era homem nunca me ocorreu estuprar uma mulher. Eu queria é que me fizessem isso comigo. Que me bolinassem as francesinhas, essas que podem chegar a São Cristóvão. Conheci uma que me deixou seu endereço. Ela ia pedindo carona por toda República Mexicana. Sozinha, em caminhões grandes.
Quando era menina, pensei que Maria Emma era de chocolate e eu de baunilha. Os meses iam girando contra o relógio e os números eram coloridos. Existia um deus que plantava a semente de um filho nas mulheres apaixonadas. Sua língua percorria todo meu corpo, até o clitóris, enquanto rezava aos anjos.
*
Não me recordo quando era homem. Só sei que queria ser mulher para logo me transformar em puta. E acho que as gringas pagavam para me acariciar.
*
Me transformo como nuvem. São Cristóvão é minha crisálida. Quantos anos tenho que permanecer aqui para poder voar?
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Tradução Ana Rüsche (versão inicial)
Madeline Gins (EUA, 1941 -)
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Excertos de What the President Will Say and Do!!
O arquivo original está disponível para download em:
Ubu Editions: http://www.ubu.com/ubu/gins_president.html
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O QUE O PRESIDENTE FALARÁ E FARÁ!!
Tradução de Rafael Rocha Daud
para Arakawa -
o descobridor do
“Vazio Formativo” -
este trabalho que ele ajudou
a formar a partir e para fora do
pântano da indeterminação
é dedicado
com admiração grande.
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Prefácio
Uma tentativa precoce para uma economia planejada (seu começo é de 01966), o presente trabalho contém idéias/movimentos de tal caráter presidenciável* que, indubitavelmente (exceto quando é apropriado duvidar), cada uma delas será cedo ou tarde decretada lei.
Em qualquer caso, este trabalho poderá justamente ser considerado tanto prognóstico como prescritivo.
Ninguém não quer um presidente que não seja um shaman. Da mesma forma, quem senão um presidente poderia tomar com bastante agressividade a epistemologia ou a ontologia ou mesmo o devastado Nada nas mãos. Num tal instante, poderia fazer uma grande diferença quem é a autoridade – quem está na posição de – como eles dizem – para vasculhar entre os estalos. Nós desejamos que seja o Presidente aquele a piedosa-triunfalmente puxar em efetivo a Natureza pela cauda.
Nem todas as alternativas aqui listadas são boas, boas e Boas. Nenhum presidente as leria se fossem. Ainda assim, para manter alguma polidez de ética no geral, como um passo para melhorias, nós reclassificamos para substituições tais como o uso do algodão em capacidade sobressalente (quando nas adjacências de oceanos) para uma boa quantidade de outros, incluindo outros, ele próprio, estrôncio, seda, renascimento (ver adiante).
Quanto ao poema, um presidente treinado saberia que até mais do que a configuração recuperada, no sentido de Mallarmé, e mais recentemente Octávio Paz, ele mais serve como uma posição, um de um jeito ou de outro, uma gladiatória.
Ainda assim, como podemos esperar daqueles sem qualquer treino que configurem a si próprios por esse modo. O Poeta sendo o Mundo. A maior parte dos documentos que seguem têm o propósito de retificar esta situação e ……………………………..:
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* tentatividade decisivamente incorporada – sua apoteose; o entre projetado; o presidente, sendo o projetista das visões de outros, a cabeça de marionete, adquire esta qualidade exclusiva através de, o tempo todo, falar e fazer corretamente o que foi prescrito.
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Poemas Presidenciais
(antes)
Um Poema Original
por Richard M. Nixon
Pisca, pisca, estrelinha*
Que é tu, quem adivinha
Lá no céu, mas bem lá em cima
Diamante a brilhar
Pisca, pisca, estrelinha
Quedê tu, quem adivinha.
* Deve ser feita uma distinção entre esta estrela e a universal.
Um Poema Original
Um Poema Original
por Gerald Ford
Pisca, pisca, estrelinha
Quedê tu, quem adivinha
Lá no céu é uma luzinha
Diamante de noitinha. *
* Deve ser feita uma distinção entre
Um Poema Original
por James Carter
Um Poema Originalmente Feito
tendo sido escrito por Ronald Reagan *
Pisca, pisca, mergulhão
Sob o gelo da lagoa
* (Subseqüentemente, uma análise de grafia está sendo executada.)
Poema de(s)re(a)gan(a)
Pêisca, pêisca, estre(i)linha
No partido mundo fascista
Eu acho que adivinho quedê você
Diá(fano)mante no c(eu).
Lapso, lapso, cobiça, lapso
Adivinha o quê? *
* Estamos tentando cimentar desespero.
ENCHER O OCEANO COM ALGODÃO!
SEMPRE DEPOSITAR SISTEMAS INFINITOS COM A FACE PARA BAIXO.
SEMPRE DEPOSITAR SISTEMAS INFINITOS.
PENDURAR SEIS FAIXAS ESCARLATES ATÉ CHEGAR A CENTÍMETROS DO CHÃO.
TODO CIDADÃO DEVERIA RECEBER UM PEQUENO E AMARELO MOTOR A VAPOR!
MANTER GRANDES QUANTIDADES DE ÁGUA SALGADA LONGE DOS OUVIDOS.
USAR COMPASSO PARA TRAÇAR A BISSETRIZ DE TODA PALAVRA DITA.
ISOLAR PONTOS E LINHAS AZUIS.
PRODUZIR TEMPO A PARTIR DA CERA.
ENTRAR NUMA ESCADARIA.
NÃO HÁ RAZÃO PARA ISTO ESTAR ONDE ESTÁ.
DETERMINAR QUE TODO PÁSSARO USE VÉU PARA PARECER MAIS MISTERIOSO!
USAR MÁRMORES (AZUIS) DENTRO DE COLUNAS MAIORES DE COLA.
TODO CONGRESSO DEVERÁ TRABALHAR SOB O PRINCÍPIO DO PARAFUSO DE ARQUIMEDES
DIMINUIR A IDADE DE NASCENÇA.
EU DISSE, “DIMINUIR A IDADE DE NASCENÇA”
PRIMEIRO DERRAMAR TODO O CHUMBO NO PASSADO
APAGAR TODAS AS LETRAS INICIAIS
Add comment Quarta-feira, Maio 7, 2008
6 º Encontro: O Corpo no Espaço poético
Virna Teixeira (Brasil, 1971 -)
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DETOX
Enrolou os ferimentos em gaze. Feridas cicatrizam com o tempo. Ainda que restem entalhes. Memórias desenhadas nos ossos, adornos.
Tirou fotografias como registros. Meses após o trauma. Sem sangue nas conjuntivas.
Deixou para trás a câmera. Travesseiro, lençol branco, a água morna do banho. Inverno, lembrança noturna.
A transformação do rosto. Quando retirou as ataduras, as suturas.
No dia da partida, árvores. De perfil no trem, a luz sobre os cabelos, castanhos.
Marília Kubota (Brasil, 1964 -)
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ESPERANDO AS BÁRBARAS
Barbie, Tippie ou como você chame,
Janet, Condolezza, Lynndie,
não é mais que uma boneca.
Não como Konstantin,
que amava os homens e por eles caiu
nos bordéis de Alexandria
anunciando homens
como os de vocês.
Vocês são demais.
Anseiam romances
enquanto seus homens explodem cabeças
de porco no mundo velho.
Vocês sabem tudo sobre sexo
e lêem revistas pornográficas em banheiros iluminados,
controlando hormônios.
Vocês são hiper.
Jovens americanas, como vocês, mas do Sul,
também ousadas, desde dez anos vendem o corpo
para comer. Os abutres comem delas.
Vocês ensinam as mulheres a serem liberadas
Usando as mais modernas técnicas
para conseguir prazer.
Todas as mulheres do mundo aguardam o ritmo
que a superestrela virgem ditará,
apertada em corpetes e botas militares.
Vocês são o rosto das mulheres do mundo.
Que será de nós sem as barbies?
Sylvia Plath (EUA, 1932 – 1963)
ARIEL
Stasis in darkness.
Then the substanceless blue
Pour of tor and distances.
God’s lioness,
How one we grow,
Pivot of heels and knees! – The furrow
Splits and passes, sister to
The brown arc
Of the neck I cannot catch,
Nigger-eye
Berries cast dark
Hooks -
Black sweet blood mouthfuls,
Shadows.
Something else
Hauls methrough air -
Thighs, hair;
Flakes from my heels.
White
Godiva, I unpeel -
Dead hands, dead stringencies.
And now I
Foam to wheat, a glitter of seas.
The child’s cry
Melts in the wall.
And I
Am the arrow,
The dew that flies
Suicidal, at one with the drive
Into the red
Eye, the cauldron of morning.
ARIEL
Estase no escuro
E um fluir azul sem substância
De penhasco e distâncias.
Leoa de Deus,
Nos tornamos uma,
Eixo de calcanhares de joelhos! – O sulco
Fende e passa, irmã do
Arco castanho
Do pescoço que não posso abraçar,
Olhinegras
Bagas cospem escuras
Iscas -
Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais
Me arrasta pelos ares -
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.
Godiva
Branca, me descasco -
Mãos secas, secas asperezas.
E agora
Espumo com o trigo, reflexo de mares.
O grito da criança
Escorre pelo muro
E eu
Sou a flecha,
Orvalho que avança,
Suicida, e de uma vez se lança
Contra o olho
Vermelho, fornalha da manhã.
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Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e do Maurício Arruda Mendonça. PLATH, Sylvia. Poemas. Organização, tradução, ensaios e notas Rodrigo Garcia Lopes, Maurício Arruda Mendonça. São Paulo: Iluminuras, 2007.
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Isabel de los Angeles Ruano (Guatemala, 1945 – )
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El Silencio Cerrado
Nadie abrió la boca
ni nadie dijo nada.
Y ese silencio, hermanos,
Nos ha vuelto culpables.
Nos quedamos callados,
ni una protesta
Ni una sola palabra
se pronunciaron.
Nada se dijo.
Y todos fuimos cómplices
de los canallas
Todos quedamos con las manos
embarradas de lodo.
¡Todos la violamos!
Todos le arrancamos
los pezones a mordiscos.
Todos le sorbimos la sangre
de los pechos ultrajados.
¡Cuando aún estaba viva!
Y es que la bestia anda suelta.
En todos los corazones.
Y ese silencio de todos
Es el silencio de la bestia saciada,
Es el silencio del culpable
de los complices.
Porque ahora todos
Somos los asesinos de
Rogelia.
Silêncio Cerrado
Ninguém abriu a boca
nem ninguém disse nada.
E esse silêncio, irmãos
Nos faz culpados.
Nós ficamos quietos,
nem um protesto
Nem uma só palavra
pronunciaram-se.
Nada foi dito.
E todos fomos cúmplices
dos canalhas
Todos ficamos com as mãos
enlameadas de lodo.
Todos nós a estupramos!
Todos arrancamos
seus mamilos a dentadas.
Todos tragamos o sangue
dos peitos ultrajados.
Enquanto ainda estava viva!
É que a besta anda solta.
Em todos os corações.
E esse silêncio de todos
É o silêncio da besta saciada,
É o silêncio dos culpados
e dos cúmplices.
Porque agora todos
somos os assassinos de
Rogélia.
tradução Ana Rüsche (versão inicial)
Add comment Quarta-feira, Maio 7, 2008
Texto de Apoio: Em respeito a Marilyn Manson
18/07/2005, especial para o Aplauso Brasil
Del Candeias
Às vezes, acabamos julgando certos artistas pela forma como aparecem e não pela forma como são. Quando vemos alguém em muitos programas de tv, em clipes da MTV, rodeado de fãs adolescentes, reagimos preconceituosamente por causa da mesmice da indústria cultural, e por isso, é possível não darmos o devido respeito a alguém que talvez tenha conseguido participar da indústria cultural e transcendê-la ao mesmo tempo. Na minha opinião, esse é o caso de Marilyn Manson.
Para quem não sabe, o nome Marilyn Manson é a união do primeiro nome de Marilyn Monroe com o do segundo de Charles Manson (o famoso assassino americano), constituindo um título que carrega um dos princípios de toda obra do roqueiro: compreender a totalidade, ou seja, o bem e o mal, o belo e o feio, e o verdadeiro e o falso. E aqui, não seria inapropriado fazer uma comparação com a teoria do sublime e do grotesco, apresentada por Victor Hugo, em seu prefácio a “Cromwell”. De modo que é possível afirmar que a transformação das figuras paradigmáticas dos opostos que constituiriam a totalidade, Esmeralda e Quasímodo, em um astro de Hollywood e um assassino têm alguma ligação com as mudanças que ocorreram na civilização ocidental – o que não é difícil de entender.
Na época do Romantismo, ou seja, no início do Capitalismo, o homem passava pelo constante conflito entre a integridade de seu eu individual e sua necessária adaptação ao funcionamento do aparato social. Portanto, sublime e grotesco, palavras tão grandiosas, ainda tinham seu espaço, já que o espírito poético do ser humano – ou se quiserem, a possibilidade de se pensar em transcender completamente a materialidade social – não tinha sido totalmente corrompido pelo prosaísmo da vida cotidiana. E com o passar do tempo, esses conflitos provocados por um sistema de extrema rigidez perduraram, mas de outra forma, pois sua negação completa parece ser inapropriada frente a extrema e duradoura consolidação do sistema vigente e tantas tentativas de transformação que não deram certo, como as revoluções socialistas (exceto a de Cuba).
Vemos, então, que ideais românticos como o amor (grandioso e não de novela), a honra e a lealdade acabaram se tornando piegas, antiquados, ou desandaram para a vulgaridade tão censurada pelos grandes nomes desse movimento artístico. Por isso, sublime e grotesco, Esmeralda e Quasímodo, transformaram-se em estrelato e psicopatia, e Marilyn e Manson. Notemos, aliás, que essa mudança refere-se à impossibilidade de transcender o âmbito social, pois diferentemente do estrelato e da psicopatia, sublime e grotesco abarcam objetos exteriores ao homem, como Deus e o Diabo, por exemplo. Afinal, no mundo contemporâneo de extremo antropocentrismo, onde a religiosidade foi transferida para a publicidade e o ser humano acredita cada vez mais num possível conhecimento e dominação total da natureza por meio da ciência, não há mais espaço para grandiosidades transcendentes – elas soam como ridículo ou devaneio.
Além desse, há outro aspecto que deve ser ressaltado no que diz respeito ao nome do roqueiro: os opostos escolhidos carregam uma contradição social.
Sabemos que os EUA são um país hegemônico, e sendo assim, devem ser considerados os mais civilizados. O que ocorre, porém, é que apesar de tanto uso da razão, como é o caso da tecnologia e das incontáveis ocasiões em que o planejamento aparece nos processos de desenvolvimento americanos, nos deparamos com situações de extrema barbárie, como foi o caso dos garotos do colégio de Columbine. Assim, vemos um percurso que transforma a civilização em barbárie ou a razão em disparate, e sua existência está referida no nome que une o glamour/beleza/requinte/delicadeza de Marilyn Monroe e a monstruosidade/feiúra/insanidade/brutalidade de Charles Manson. Tal percurso já foi identificado por Adorno, principalmente em “A dialética do Esclarecimento“, e o exemplo ideal escolhido foi o nazismo que talvez tenha erigido o auge da barbárie, graças ao auge da civilidade, por meio de uma racionalidade irracional.
Não à toa, o próprio Marilyn Manson faz muitas referências ao nazismo. E um de seus costumes, inclusive, é o de fazer shows atrás de púlpitos. Há entrevistas, nas quais ele mesmo afirma que o modo como está consolidada a sociedade de hoje não é tão diferente da que foi constituída por Hitler. As guerras, as cada vez mais rígidas exigências do trabalho, a tecnologização e burocratização crescentes, e principalmente, a propaganda e o mundo midiático, são associados aos tempos do Terceiro Reich. A música “The beautiful people” baseia-se nesse argumento, apontando como a padronização da beleza corporal não é tão diferente da eugenia fundamentada no princípio de raça ariana. Há, inclusive, um trecho em que próprio movimento dialético da razão culminando na barbárie é identificado:
“The worms will live in every host/It’s hard to pick which one they eat most/The horrible people, the horrible people/It’s as anatomic as the size/Of your steeple/Capitalism has made it this way,/Old-fashioned fascism/Will take it away”
“Os vermes viverão em todo hospedeiro/É difícil dizer qual eles comerão mais/As pessoas horríveis, as pessoas horríveis/É tão anatômico quanto o tamanho/Da torre da sua igreja/O capitalismo fez desse jeito/Facismo fora de moda/Vai acabar com isso”
No videoclipe dessa música, Marilyn Manson aparece como um ditador que leva as pessoas que o louvam para uma espécie de torre – tal qual a da letra da música – onde são alteradas fisicamente como quem faz plástica, numa espécie de laboratório, de modo a metaforizar a animalização do ser humano. Como já foi dito, esse papel serve é um costume do roqueiro. E num de seus primeiros cds, de 96, no qual ele mesmo se denomina como o anti-cristo superstar, é que parece que se consolida essa imagem, sendo reaproveitada até hoje. E então, surge a pergunta: Por que essa insistência?
Talvez porque, como tudo o que quer existir, mesmo sendo transgressor, Marilyn Manson foi inserido no sistema. E no seu caso, a inserção foi tanta que ele se tornou um dos artistas mais conhecidos da música pop – como seu nome já previa, o estrelato e a monstruosidade (essa nem tanto) culminaram nos seus ideais. Isso criou um estado de extrema tensão, pois o que é negado é ao mesmo tempo afirmado e vice-versa. A cultura criticada é a que dá espaço à crítica e a crítica é transformada em mercadoria e propaganda, tal qual se dá com grupos como NSYNC. Isso quer dizer que, necessariamente, Marilyn Manson é entendido e distorcido ao mesmo tempo, e assim, o processo de caricaturar, muito presente em sua obra, pode ser interpretado como uma maneira de dificultar a distorção: a explicitação do caráter distorcido da obra de arte, ou seja, de seu caráter meramente fetichista, propagandista e mercadológico. Como já disse o próprio Adorno, numa civilização como a nossa, é preciso escancarar, mesmo para apontar o que é óbvio.
Por isso, o fetiche se apresenta evidente no exagero de detalhes estéticos, seu sado-masoquismo e seu satanismo desconfiável (porque não parece ser levado a sério), que aparecem insistentemente. E vemos que a técnica e a produção que constroem um artista da música pop são explicitadas pelas roupas exageradas, a maquiagem carregada, o excesso de encenações e as mutações sofridas pelo roqueiro, como por exemplo, no clipe de “Dope Show”, no qual ele aparece transformado em uma mulher de formas estranhas. Em se tratando de mulheres, aliás, essas estão em muitos dos vídeos, lindas e bem tratadas, mas à maneira Marilyn Manson: góticas, exageradamente sensuais, e com uma aparência um tanto quanto “junkie”. Assim, as mulheres, incluindo as fãs, abundam nos vídeos como de costume – são um engodo freqüente dos artistas -, mas com algum caráter subversivo, goticizadas (o que não é um padrão da cultura pop), usando uniformes nazistas, participando de shows de cabaré; ou explicitadas como fetiche, como é o caso de uma moça que aparece de biquíni, segurando um grande “bloco de gelo” num copo gigante de bebida (clipe de “Mobscene”). Esses exemplos fazem parte de outro dos processos mais utilizados para sua crítica: a assunção de uma forma ou conteúdo, de modo a corrompê-los. E isso ocorre tanto com o nazismo, como também com o que é costumeiro no mundo pop, além de figuras mitologizadas (Marilyn Manson já se vestiu de Mickey Mouse e interpretou Willy Wonka, um papa, Virgem Maria e John Kennedy em alguns de seus clipes). Há também releituras de elementos do Dadaísmo e do expressionismo alemão e algumas surpresas esparsas como o uso da abertura de “Oito e meio”, de Fellini, para o início do cd “The golden age of grotesque” e trilha sonora de um curta-metragem. As suas versões de músicas conhecidas – as mais famosas são as de “Sweet dreams” e “Tainted love” – também se fazem a partir desse processo de subversão.
Portanto, além do evidente Romantismo do sujeito que não consegue se adequar ao mundo e à sociedade, encontramos na sua obra um caráter clássico, de imitação, talvez até como manifestação de um paradoxo que percorre nossa cultura. Apesar de a genialidade e a inventividade terem sido os principais valores que tornaram a arte moderna diferente da clássica, a indústria cultural e suas fórmulas acabaram revertendo o processo, educando um público afoito por novidades que repetem certos aspectos, como timbres, temas, ou simples fetiches, tal qual é o caso dos artistas que se utilizam do sexo para convencer o público de que sua arte tem algo que ela não tem. Outro ponto importante a ser ressaltado é o de que o próprio Marilyn Manson cita a si próprio, e tem de ser ouvido, visto e lido (para quem não sabe, ele é autor de dois livros e já fez exposições com seus quadros) com cuidado, porque sua arte forma um mundo simbólico próprio, de modo não muito incomum a artistas da modernidade, como David Lynch, Kandinsky e Magritte. Essa classicidade culmina numa espécie de carnavalização e nenhum símbolo, mesmo os do próprio cantor, pode ser devidamente respeitado, porque tudo é subvertido e, portanto, desrespeitado. E assim, cria-se uma espécie de religião ou fascismo do pop, mesclada com nazismo e ocultismo, que nega a si própria. E por isso é que ela é crítica, porque talvez não seja apenas Marilyn Manson que tenha inaugurado uma religião ou fascismo pop.
Enfim, inserido numa sociedade, onde a arte foi desfigurada em mercadoria, e a recepção baseada na compreensão da totalidade da obra em relação à totalidade da tradição foi deturpada no imediatismo do fetiche, Marilyn Manson, abusa das distorções e as critica ao mesmo tempo, de modo a estabelecer uma crítica tanto, obviamente, na transgressão, quanto na assunção dos valores vigentes. Mas é necessário ressaltar que, como um artista muito perspicaz, apesar de os fetiches aparecerem subvertidos, e as mulheres de corpos sarados e corados serem substituídas por moças brancas de aspecto não muito saudável, as festas de jovens animados darem lugar a encontros sado-masoquistas, as partidas de futebol americano se tornarem lutas, e apesar da beleza da modernidade ocidental vir sempre acompanhada de um olho de cada cor, seres deformados, sujeira, tristeza e morte, esses aspectos, que seriam negativos na nossa cultura, também não aparecem sozinhos. Afinal, na idade do grotesco, nós, os animais mecânicos, que fazemos da razão a barbárie e da barbárie a paz, não poderíamos eleger um superstar anti-cristo, que também não fosse anti-cristo superstar.
VÍDEO: The Beautiful People
www.youtube.com/watch?v=OY0536g_6Wc
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5 º Encontro: Amor, Consumo e Pornografia
Hilda Hilst (Brasil, 1930 – 2004)
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A Cantora Gritante
Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite… de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão… aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.
Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
.
Ana Cristina César (Brasil, 1952 – 1983)
.
O HOMEM PÚBLICO N. 1
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
.
Ana Paula Ferraz (Brasil, –)
.
Eu vejo pelos ombros o caminhante percorrendo as montanhas.
Ele quer o doce e escuro poço
e encontra
e molha os dedos
e abre
o pequeno orifício
que atravessa rompendo, em rompantes
acariciando copas, apalpando o fruto
invadindo os pomares
atrás do vale.
Tudo ele toma, em mergulho, até que a terra arde.
Assim descubro, fundamente
(já são suaves as mãos de sombra -
ele é quase folha caída)
: amar é uma brutalidade.
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3º Encontro: Diferentes Mundos, Diferentes Dicções Poéticas | 4 º Encontro: Escritoras em seu meio: sempre Musas ou Mulherzinhas?
E às 17:30h, haverá uma pequena sessão do filme As Horas, para aquecer nosso debate sobre o filme. Hum, vai dar samba. Ou algo melhor, hehe.
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Dica: Um lugar interessante para se pesquisar poemas é o boletim do Carlos Machado, Poesia.net.
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Emily Dickinson (EUA, 1830 -1886)
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219
She sweeps with many-colored Brooms -
And leaves the Shreds behind -
Oh Housewife in the Evening West -
Come back, and dust the Pond!
You dropped a Purple Ravelling in -
You dropped an Amber thread -
And how you’ve littered all the East
With duds of Emerald!
And still, she plies her spotted Brooms,
And still the Aprons fly,
Till Brooms fade softly into stars -
And then I come away -
.
219
Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:
Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!
Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas -
E eu me vou, não olho mais.
.
245
I held a Jewel in my fingers -
And went to sleep -
The day was warm, and winds were prosy -
I said “‘Twill keep” -
I woke – and chid my honest fingers,
The Gem was gone -
And now, an Amethyst remembrance
Is all I own -
.
245
Tive uma jóia nos meus dedos -
E adormeci -
Quente era o dia, tédio os ventos -
“É minha”, eu disse -
Acordo – e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro -
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo -
.
Alice Ruiz (Brasil, 1946 – )
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sou uma moça polida
levando
uma vida lascada
cada instante
pinta um grilo
por cima
da minha sacada
.
já não temo os fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta
Retirado de Pelos Pêlos, 1984
Add comment Domingo, Março 30, 2008
tigre! tigre!
por ana rüsche
Bem, conforme prometido, segue o poema antológico do William Blake (1757-1827), assim como a tradução igualmente famosa do Augusto.
No boletim Poesia.Net, o Carlos Machado separou também a tradução do José Paulo Paes e traz nota sobre as graphias com ‘y’.
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THE TYGER
Tyger, tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies 5
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart? 10
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp 15
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And water’d heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee? 20
Tyger, tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
.
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O TYGRE
.
Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?
Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?
Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?
Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?
Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?
Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?
tradução de Augusto de Campos
Add comment Segunda-feira, Março 24, 2008
2º Encontro: O Escrito por uma Mulher
As duas fotos que seguem foram discutidas naquela biblioteca envidraçada, onde é possível ver entre seus concretos o trânsito noturno na Henrique Schaumann. As imagens pertencem à Exposição “Magnum, 60 Anos“, que está no Conjunto Nacional, Espaço Caixa Cultural, Av. Paulista, 2083, até dia 6 de abril. Grátis..
Créditos: Eve Arnold, Marlyn, 1940 e Elliot Erwitt, 1963, Pasadena Califórnia (EUA).
O jaguar luminoso
sobre o muro de quartzo
é a noite em chamas;
é a trama da água penetrada de sol, seu movimento
cadencioso.
Sobe ao zênite de seus domínios,
adentra a claridade. No amplo
espaço abrupto, sua pele constelada é um lampejo,
o doce e morno florescer do cristal,
um traço breve sobre o gelo.
A pedra e o céu se tocam;
astros escuros e imensidão.
Templo de inalterada transparência,
o dia sustém e oferenda
a preamar noturna.
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NAS ENTRANHAS DO TEMPO
O tempo cede
e entreabre
sua delicada profundidade (Portas
que protegem umas às outras; que entram umas nas outras; traços,
rastros de mar.) Um outono
de lenhos e frondes. Em seu fundo:
A espessura translúcida do prazer; suas heras íntimas:
Ouro:
foliações de luz: Fogo que se enraíza no metal florescido,
e um musgo fino,
incandescente.
Ambos poemas foram traduzidos por Josely Vianna Baptista
.
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Josely Vianna Baptista (Brasil, 1957 -)
RIVUS
A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.
No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
.
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Adília Lopes (Portugal, 1960 -)
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[MINHA AVÓ E MINHA MÃE]
Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficamos porém umas com as outras
para não arranjar complicações
.
PRIMEIRO AMOR
gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anônimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita
.
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Noémia de Sousa (Moçambique, 1926 – 2003)
.
Negra
Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de Africa.
Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.
Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.
E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE
Add comment Sexta-Feira, Março 21, 2008
1º Encontro: Introdução
: Mulheres, Mudez e Espera?
Texto de Apoio:
Susan WILLIS, Cotidiano: Para Começo de Conversa, trad Elena Riederer e Guiomar Boscov, Editora Graal, 1997.
O trecho foi retirado da página 16, em que é mencionado estudo de Tania Modleski sobre as telenovelas:
“Tania Modleski*, em sua análise de telenovelas, faz considerações sobre esse gênero que fornecem uma pista para a decifração da embalagem. Ela identifica a “espera” como o aspecto formal de maior relevância nas telenovelas. Como todos sabemos, nesse tipo de entretenimento não acontece nada e não se resolve nenhum problema. Os personagens que abrem um determinado capítulo podem sumir pó um dia ou dois, um outro capítulo pode anunciar um acontecimento dramático ou escandaloso, mas a chegada do seu ponto culminante e sua conseqüências irão se arrastar por semanas. Os telespectadores aprendem a manter enredos e personagens em suspenso, capítulo após capítulo, esperando o final que sabem que vai demoram a chegar. Modleski acentua que “as telenovelas são importantes para o público, em parte porque nunca terminam. A narrativa, colocando obstáculos cada vez mais complexos entre o desejo e sua realização, faz da espera um fim em si”. Modleski compara habilmente a espera-componente-formal-da-telenovela com a experiência vivida pela dona de casa. Sozinha em casa, seu marido no trabalho, um ou todos os seus filhos na escola, a dona de casa desempenha as tarefas cotidianas necessárias à manutenção do lar e da família num ambiente em que tudo é espera.
As telenovelas revestem de prazer requintado a condição central da vida da mulher – a espera -, seja pelo tocar do telefone, pelo soninho do nenê ou pela reunião da família logo após o capítulo da telenovela, onde os personagens que também encarnam uma família foram interrompidos mais uma vez em sua luta contra a dissolução”.
Modleski conclui que o apelo das telenovelas reside na maneira com que elas transformam a espera em um prazer – a telenovela estetiza a espera e permite que a dona de casa transcenda sua experiência real e frustrante da espera e a conceba como um prazer”.
* MODLESKI, Tânia. Loving with a Vengeance, Nova York, Methuen, 1982.
.
EXCERTO 1 (Ana Cristina César)
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Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:
.
.
EXCERTO 2 (Paulo Ferraz)
(…)
Uma mulher no outdoor nossa
mudez é absoluta, mesmo a
daqueles que pensam ter o
dom da fala, mudez seca
como nem a pedra é seca,
não que lhe falte umidade,
pois, ao contrário da pedra
que se irrigada se quebra,
decompõe-se em terra e cede À
força da semente, A nossa
mudez calada, entretanto
sua estrutura é seu conteúdo
mais verdadeiro. Seu corpo
falso, luzes prisioneiras
do papel, não nos esconde
que é engodo, justo por sermos
mudos, ver coage com mais e-
ficácia. é asfáltica, estéril,
onde nada nasce, imprópria
para o plantio de palavras
- espécie animal que vive
só em bandos -, nossa mudez, a
mudez virótica, é o eco
do primeiro dia, sem forma e
vazia. Que autoridade é essa
de uma mulher no outdoor para
comer minhas cicatrizes,
meus silêncios e saudades,
(…)
2 comments Quinta-feira, Março 13, 2008


