Outro do Yeats, também político e sobre mulher (em parte)

Como eu havia prometido, o outro poema, também do Yeats, no qual ele mostra sua visão particular da mulher, no caso, a sua. Talvez ele devesse perguntar, como Freud, “o que quer uma mulher”?
Infelizmente, por ordem da srta. professora, estarei presente a outro evento durante a aula desta semana, então espero que o poema fique bem guardado (caso não proveitosamente discutido, o preferível) até a próxima semana.

NO SECOND TROY

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

UMA ÚNICA TRÓIA

Como irei culpá-la pela tristeza
Com que encheu meus dias, ou que ela ao fim
Tenha ensinado a dureza aos incultos,
Ou lançado contra o grande o pequeno,
Em quem só a coragem iguala a vontade?
Que causa podia acalmar esse espírito
Que a nobreza fez simples como fogo,
Bela como um arco esticado — coisa
pouco natural numa idade assim —
e solitária como num altar?
Que lhe restava, se ainda era ela,
Sem segunda Tróia para queimar?

(trad. Rafael Rocha Daud)

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terça-feira, março 25, 2008 at 8:16 pm Deixe um comentário

tigre! tigre!

por ana rüsche

Bem, conforme prometido, segue o poema antológico do William Blake (1757-1827), assim como a tradução igualmente famosa do Augusto.

No boletim Poesia.Net, o Carlos Machado separou também a tradução do José Paulo Paes e traz nota sobre as graphias com ‘y’.

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THE TYGER

Tyger, tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies 5
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?

And what shoulder and what art
Could twist the sinews of thy heart? 10
And when thy heart began to beat,
What dread hand and what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp 15
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And water’d heaven with their tears,
Did He smile His work to see?
Did He who made the lamb make thee? 20

Tyger, tyger, burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

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O TYGRE

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Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

tradução de Augusto de Campos

segunda-feira, março 24, 2008 at 10:17 pm Deixe um comentário

Guilherme Mantleiga Yeats

por Rafael Daud

Gostaria de apresentar essa tradução deste poema do William Buttler Yeats para uso e discussão dos alunos do curso.

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ON BEING ASKED FOR A WAR POEM

I think it better that in times like these
A poet’s mouth be silent, for in truth
We have no gift to set a statesman right;
He has had enough of meddling who can please
A young girl in the indolence of her youth,
Or an old man upon a winter’s night.

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EM LHE SENDO PEDIDO UM POEMA DE GUERRA

Penso ser desejável, em tempos assim,
Que silencie a fala do poeta, a quem
Falta o poder de corrigir o homem de Estado;
Já se intrometeu o bastante quem satisfez
Uma jovem na indolência da juventude,
Ou um velho durante uma noite de inverno.

trad. Rafael Rocha Daud

sexta-feira, março 21, 2008 at 6:42 pm Deixe um comentário

2º Encontro: O Escrito por uma Mulher

As duas fotos que seguem foram discutidas naquela biblioteca envidraçada, onde é possível ver entre seus concretos o trânsito noturno na Henrique Schaumann. As imagens pertencem à Exposição “Magnum, 60 Anos“, que está no Conjunto Nacional, Espaço Caixa Cultural, Av. Paulista, 2083, até dia 6 de abril. Grátis..

Créditos: Eve Arnold, Marlyn, 1940 e Elliot Erwitt, 1963, Pasadena Califórnia (EUA).

Magnum_EveArnold

Pasadena-California_ElliotErwitt

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No encontro, lemos, relemos e conversamos sobre os dois poemas da mexicana Coral Bracho, assim como o Rivus, da brasileira Josely Baptista. Acabamos a noite com o Primeiro Amor da portuguesa Adília Lopes e deixamos o [Minha Avó e Minha Mãe] e o Negra, da moçambicana Noémia de Sousa para o próximo encontro.
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Coral Bracho (México, 1951, -)
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JAGUAR SOBRE UM MURO DE QUARTZO
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O jaguar luminoso
sobre o muro de quartzo
é a noite em chamas;
é a trama da água penetrada de sol, seu movimento
cadencioso.
Sobe ao zênite de seus domínios,
adentra a claridade. No amplo
espaço abrupto, sua pele constelada é um lampejo,
o doce e morno florescer do cristal,
um traço breve sobre o gelo.
A pedra e o céu se tocam;
astros escuros e imensidão.
Templo de inalterada transparência,
o dia sustém e oferenda
a preamar noturna.

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NAS ENTRANHAS DO TEMPO

O tempo cede
e entreabre
sua delicada profundidade (Portas
que protegem umas às outras; que entram umas nas outras; traços,
rastros de mar.) Um outono
de lenhos e frondes. Em seu fundo:
A espessura translúcida do prazer; suas heras íntimas:
Ouro:
foliações de luz: Fogo que se enraíza no metal florescido,
e um musgo fino,
incandescente.

Ambos poemas foram traduzidos por Josely Vianna Baptista

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Josely Vianna Baptista (Brasil, 1957 -)

RIVUS

A água mede o tempo em reflexos vítreos. Mudez
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.

No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.

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Adília Lopes (Portugal, 1960 -)

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[MINHA AVÓ E MINHA MÃE]

Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficamos porém umas com as outras
para não arranjar complicações

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PRIMEIRO AMOR

gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Java
resolvi assim escrever-lhe cartas anônimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

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Noémia de Sousa (Moçambique, 1926 – 2003)

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Negra

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias…
Teus encantos profundos de Africa.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia…
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra…
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

sexta-feira, março 21, 2008 at 12:44 pm Deixe um comentário

1º Encontro: Introdução

: Mulheres, Mudez e Espera?

Texto de Apoio:
Susan WILLIS, Cotidiano: Para Começo de Conversa, trad Elena Riederer e Guiomar Boscov, Editora Graal, 1997.

O trecho foi retirado da página 16, em que é mencionado estudo de Tania Modleski sobre as telenovelas:

“Tania Modleski*, em sua análise de telenovelas, faz considerações sobre esse gênero que fornecem uma pista para a decifração da embalagem. Ela identifica a “espera” como o aspecto formal de maior relevância nas telenovelas. Como todos sabemos, nesse tipo de entretenimento não acontece nada e não se resolve nenhum problema. Os personagens que abrem um determinado capítulo podem sumir pó um dia ou dois, um outro capítulo pode anunciar um acontecimento dramático ou escandaloso, mas a chegada do seu ponto culminante e sua conseqüências irão se arrastar por semanas. Os telespectadores aprendem a manter enredos e personagens em suspenso, capítulo após capítulo, esperando o final que sabem que vai demoram a chegar. Modleski acentua que “as telenovelas são importantes para o público, em parte porque nunca terminam. A narrativa, colocando obstáculos cada vez mais complexos entre o desejo e sua realização, faz da espera um fim em si”. Modleski compara habilmente a espera-componente-formal-da-telenovela com a experiência vivida pela dona de casa. Sozinha em casa, seu marido no trabalho, um ou todos os seus filhos na escola, a dona de casa desempenha as tarefas cotidianas necessárias à manutenção do lar e da família num ambiente em que tudo é espera.

As telenovelas revestem de prazer requintado a condição central da vida da mulher – a espera -, seja pelo tocar do telefone, pelo soninho do nenê ou pela reunião da família logo após o capítulo da telenovela, onde os personagens que também encarnam uma família foram interrompidos mais uma vez em sua luta contra a dissolução”.

Modleski conclui que o apelo das telenovelas reside na maneira com que elas transformam a espera em um prazer – a telenovela estetiza a espera e permite que a dona de casa transcenda sua experiência real e frustrante da espera e a conceba como um prazer”.

* MODLESKI, Tânia. Loving with a Vengeance, Nova York, Methuen, 1982.

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EXCERTO 1 (Ana Cristina César)

.
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:

.

.
EXCERTO 2 (Paulo Ferraz)

(…)
Uma mulher no outdoor nossa
mudez é absoluta, mesmo a
daqueles que pensam ter o
dom da fala, mudez seca
como nem a pedra é seca,
não que lhe falte umidade,
pois, ao contrário da pedra
que se irrigada se quebra,
decompõe-se em terra e cede À
força da semente, A nossa
mudez calada, entretanto
sua estrutura é seu conteúdo
mais verdadeiro. Seu corpo
falso, luzes prisioneiras
do papel, não nos esconde
que é engodo, justo por sermos
mudos, ver coage com mais e-
ficácia. é asfáltica, estéril,
onde nada nasce, imprópria
para o plantio de palavras
– espécie animal que vive
só em bandos -, nossa mudez, a
mudez virótica, é o eco
do primeiro dia, sem forma e
vazia. Que autoridade é essa
de uma mulher no outdoor para
comer minhas cicatrizes,
meus silêncios e saudades,
(…)

quinta-feira, março 13, 2008 at 1:06 pm 2 comentários

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"Mujeres-Women-Mulheres II: Uma leitura sobre o Cotidiano para o Século XXI" é a segunda edição de curso ministrado inicialmente em 2008. O blogue é um espaço para reflexão e publicações de material discutido no grupo. Contribuições são bem-vindas!

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